Insônia: por que não consigo dormir e como recuperar um sono saudável?
É comum eu ouvir, logo nos primeiros minutos de uma sessão, uma frase parecida com esta: “Estou cansado o dia inteiro, mas quando deito o sono simplesmente não vem.” A pessoa relata que passa o dia contando as horas para poder descansar, e que, na hora em que finalmente deita, algo estranho acontece — a cabeça liga, como se tivesse esperado justamente aquele momento de silêncio para começar a funcionar.
Se isso soa familiar, quero começar dizendo uma coisa que costumo repetir bastante no consultório: a insônia raramente é apenas um problema de sono. Na grande maioria dos casos que atendo, ela é a ponta de um novelo que envolve pensamentos, emoções, hábitos construídos ao longo de meses ou anos, e o próprio funcionamento do cérebro diante do estresse do dia a dia. Entender essa engrenagem completa é o primeiro passo para parar de tratar apenas o sintoma — a dificuldade de dormir — e começar a olhar para o que está, de fato, mantendo esse padrão vivo.
Este texto é longo porque o assunto merece profundidade. Vou explicar como o sono funciona, por que ele falha, o que a ansiedade e o estresse têm a ver com isso, e como a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (a chamada TCC-I) trabalha essas questões na prática clínica. Sem promessas de solução instantânea — mas com um caminho real, baseado em evidência, para quem já não aguenta mais noites em claro.
Resumo rápido
A insônia é a dificuldade persistente de iniciar ou manter o sono, mesmo quando existe oportunidade e condições adequadas para dormir. Ela se diferencia de uma noite ruim isolada pela frequência (geralmente três ou mais noites por semana) e pela duração (mais de três meses, no caso da insônia crônica). Na maioria dos casos que atendo, a insônia não é um problema isolado do corpo, mas o resultado de um sistema nervoso em alerta — geralmente alimentado por ansiedade, estresse ou pensamentos ruminativos que se intensificam justamente na hora de deitar, quando os estímulos do dia diminuem e a mente finalmente “tem espaço” para processar tudo que foi represado. Some-se a isso um padrão comum: depois de algumas noites mal dormidas, a pessoa passa a temer a própria hora de dormir, o que cria um ciclo de ansiedade antecipatória que piora ainda mais o problema. A Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) é hoje reconhecida como tratamento de primeira linha, atuando sobre os pensamentos, comportamentos e associações que mantêm esse ciclo ativo — sem depender de medicação a longo prazo. Ao longo deste artigo, vou explicar cada uma dessas peças com calma, e mostrar o que realmente funciona (e o que só piora as coisas) para quem está enfrentando noites difíceis.
O que é insônia?
Insônia é a dificuldade persistente em iniciar o sono, mantê-lo ao longo da noite, ou a sensação de acordar muito cedo sem conseguir voltar a dormir — mesmo havendo tempo e condições adequadas para isso. É essa última parte que muita gente esquece: insônia não é dormir pouco porque a rotina não permite, é não conseguir dormir mesmo quando existe a oportunidade.
Clinicamente, costuma-se falar em insônia quando esse padrão acontece pelo menos três noites por semana, e gera algum prejuízo perceptível durante o dia — cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração, entre outros. Quando esse quadro persiste por três meses ou mais, chamamos de insônia crônica. Quando dura menos tempo, geralmente associada a um evento específico (uma mudança, um luto, um período de provas), falamos em insônia aguda ou situacional.
Vale marcar uma diferença importante: uma noite maldormida, isolada, não é insônia. Todo mundo já teve uma noite de sono ruim antes de uma viagem, de uma entrevista, de uma decisão importante. O problema começa quando esse padrão se repete com frequência e passa a fazer parte da rotina — quando dormir mal deixa de ser exceção e passa a ser regra.
Como funciona o sono
Para entender por que o sono falha, ajuda saber, ainda que de forma simples, como ele deveria funcionar.
Ritmo circadiano
É o nosso “relógio biológico interno”, regulado principalmente pela luz. Ele avisa ao corpo quando é hora de estar alerta e quando é hora de descansar, ao longo de um ciclo de aproximadamente 24 horas. Esse relógio é sensível à exposição à luz — especialmente à luz azul de telas — e a horários irregulares de sono, o que explica por que dormir e acordar em horários muito variáveis (comum em quem trabalha por escala, ou em quem “compensa” o sono perdido durante a semana dormindo até tarde no fim de semana) tende a desregular esse sistema.
Pressão do sono
Existe uma substância chamada adenosina que se acumula no cérebro ao longo do dia — quanto mais tempo acordado, mais adenosina se acumula, e maior fica a “pressão” para dormir. É por isso que cochilos longos durante o dia podem prejudicar o sono da noite: eles aliviam parte dessa pressão, e à noite sobra menos “vontade fisiológica” de dormir.
Melatonina
É o hormônio que sinaliza ao corpo que está na hora de dormir. Sua produção aumenta com a escuridão e é inibida pela luz — principalmente pela luz azul de celulares, tablets e televisores. Um ambiente muito iluminado à noite, incluindo o brilho da tela do celular na cama, pode atrasar essa sinalização.
Cortisol
É o hormônio do estresse, e ele segue um padrão natural ao longo do dia: mais alto pela manhã (para ajudar a “ligar” o corpo) e mais baixo à noite (para permitir o relaxamento necessário ao sono). Quando existe estresse crônico, esse padrão se desregula, e é comum que o cortisol permaneça elevado à noite — exatamente o momento em que deveria estar em queda. É um dos motivos centrais pelos quais pessoas estressadas relatam sentir o corpo “cansado, mas a cabeça ligada” na hora de deitar.
Principais causas da insônia
A insônia raramente tem uma causa única. Na prática clínica, costumo ver uma combinação de fatores, entre os quais os mais comuns são:
- Ansiedade: preocupação excessiva com o futuro, sensação de alerta constante.
- Estresse: sobrecarga de responsabilidades, prazos, cobranças.
- Preocupações específicas: um problema pontual (financeiro, familiar, de saúde) que ocupa a mente à noite.
- Excesso de trabalho: jornadas muito longas, levar trabalho para casa, checar e-mails até tarde.
- Excesso de telas: uso de celular, computador ou televisão até pouco antes de dormir, tanto pela luz quanto pelo estímulo mental.
- Cafeína: consumida à tarde ou à noite, tem meia-vida longa o suficiente para ainda afetar o sono horas depois.
- Álcool: embora dê sensação inicial de sonolência, fragmenta o sono ao longo da noite e reduz sua qualidade.
- Mudanças de rotina: viagens, trocas de turno de trabalho, mudanças de casa.
- Depressão: frequentemente associada tanto à dificuldade de iniciar o sono quanto ao despertar precoce.
- Dores crônicas: desconforto físico que dificulta encontrar uma posição confortável ou manter o sono contínuo.
- Medicamentos: alguns remédios, incluindo certos antidepressivos, corticoides e medicações para pressão, podem ter efeito estimulante ou interferir no padrão de sono.
Na maioria dos casos que acompanho, não é um único fator isolado, mas uma combinação — por exemplo, uma pessoa com sobrecarga profissional que também consome café à tarde e checa e-mails de trabalho na cama, criando três fatores se somando na mesma noite maldormida.
Insônia e ansiedade
A relação entre insônia e ansiedade costuma seguir um ciclo bastante previsível, que vale a pena entender em detalhes:
Ansiedade → Hipervigilância → Insônia → Mais ansiedade → Mais dificuldade para dormir
A ansiedade mantém o sistema nervoso em estado de alerta — o que chamamos de hipervigilância. Esse estado é, por definição, incompatível com o relaxamento necessário para adormecer: o cérebro está ocupado escaneando possíveis ameaças (reais ou imaginadas), e não “autoriza” a desconexão que o sono exige.
O resultado é a insônia daquela noite específica. Até aqui, seria apenas um evento isolado. O problema é o próximo passo: depois de uma ou duas noites maldormidas, surge uma nova camada de ansiedade — o medo de não conseguir dormir de novo. Esse medo, por si só, já é suficiente para manter o corpo em alerta na noite seguinte, criando exatamente a hipervigilância que impede o sono. É assim que um episódio pontual de insônia, gerado por uma preocupação específica, pode se transformar em um padrão persistente, mesmo depois que a preocupação original já foi resolvida.
Um exemplo comum: uma pessoa passa por uma semana difícil no trabalho e tem duas noites de sono ruim por causa disso. Na terceira noite, mesmo com a situação do trabalho já mais tranquila, ela deita e o primeiro pensamento é “será que hoje eu vou conseguir dormir?” — e essa pergunta, sozinha, já é o suficiente para reativar o alerta que impede o sono.
Insônia e estresse
Como comentei na seção sobre cortisol, o estresse crônico tende a manter esse hormônio elevado à noite, quando ele deveria estar em queda. Isso dificulta especificamente o início do sono — a sensação de estar exausto, mas “não conseguir desligar”.
É diferente, por exemplo, da insônia associada à depressão, que costuma se manifestar mais como despertar precoce (acordar bem antes do necessário e não conseguir voltar a dormir). No estresse, o padrão mais comum é a demora para pegar no sono, com a mente repassando pendências, decisões e preocupações do dia — o que nos leva à próxima seção. Se esse padrão de alerta constante te parece familiar, talvez valha a pena ler também nosso artigo sobre estresse, que aprofunda esse tema.
Pensamentos acelerados antes de dormir
Esse é, na minha experiência clínica, um dos pontos mais decisivos no tratamento da insônia — e um dos menos compreendidos por quem sofre com ela.
Durante o dia, estamos ocupados com tarefas, conversas, telas, deslocamentos. Existe um fluxo constante de estímulos externos que, de certa forma, “distrai” a mente das preocupações mais profundas. Na hora de deitar, esse fluxo para. E é justamente nesse silêncio que a mente aproveita para processar tudo que ficou represado.
Alguns padrões de pensamento costumam aparecer com frequência nesse momento:
- Ruminação: repassar repetidamente situações do passado — uma discussão, um erro no trabalho, uma decisão que já foi tomada e não pode mais ser mudada.
- Preocupação excessiva: antecipar problemas futuros, muitas vezes com cenários pouco prováveis ou fora do controle da pessoa naquele momento.
- Planejamento compulsivo: usar o horário de dormir para organizar mentalmente a lista de tarefas do dia seguinte, como se resolver tudo mentalmente ali fosse evitar esquecer algo importante.
- Autocrítica: avaliar o próprio desempenho do dia de forma dura, repassando erros e imperfeições.
Um exemplo que aparece com frequência: um paciente relata que, assim que apaga a luz, começa a repassar mentalmente uma reunião de trabalho do dia anterior, pensando em tudo que “deveria ter dito diferente”. Isso o mantém alerta por horas, mesmo estando fisicamente exausto. Esse tipo de padrão tem relação direta com o que já discutimos em como parar de pensar demais — a diferença é que, aqui, o cenário é especificamente a cama, o que cria uma associação perigosa entre o ambiente de dormir e o próprio ato de ruminar, algo que vamos detalhar mais adiante ao falar de condicionamento.
Sintomas da insônia
Vale separar os sintomas por categoria, porque cada uma revela um aspecto diferente do problema.
Físicos: cansaço persistente, tensão muscular, dores de cabeça, alterações no apetite, queda de imunidade (resfriados mais frequentes).
Emocionais: irritabilidade, ansiedade antecipatória em relação à hora de dormir, sensação de desânimo, instabilidade emocional ao longo do dia.
Cognitivos: dificuldade de concentração, falhas de memória, lentidão para tomar decisões, sensação de “neblina mental”.
Comportamentais: evitar compromissos sociais por cansaço, aumento do consumo de cafeína para compensar, cochilos irregulares durante o dia, checagem repetida de horas durante a madrugada.
Consequências da privação de sono
A privação de sono não afeta apenas a disposição — ela tem impacto mensurável em praticamente todas as áreas da vida:
- Memória: o sono tem papel direto na consolidação de memórias; dormir mal prejudica tanto a formação quanto a recuperação de informações aprendidas.
- Atenção: a capacidade de manter o foco em uma tarefa cai significativamente após noites maldormidas, aumentando o risco de erros e acidentes.
- Humor: a privação de sono está associada a maior irritabilidade, instabilidade emocional e menor tolerância à frustração.
- Produtividade: tarefas que normalmente levariam pouco tempo passam a exigir mais esforço e concentração, criando uma sensação de “trabalhar o dobro para render a metade”.
- Relacionamentos: menor paciência e maior reatividade emocional tendem a gerar mais conflitos com parceiros, filhos e colegas.
- Imunidade: o sono é fundamental para a regulação do sistema imunológico; privação prolongada está associada a maior suscetibilidade a infecções.
- Ansiedade: a privação de sono aumenta a reatividade emocional a estímulos negativos, tornando mais difícil regular a ansiedade ao longo do dia.
- Depressão: existe uma relação bidirecional bem documentada entre insônia persistente e maior risco de desenvolvimento ou agravamento de quadros depressivos.
O ciclo da insônia
Um dos conceitos mais úteis para entender por que a insônia se mantém, mesmo depois que a causa original já passou, é o que chamamos de ciclo da insônia:
Uma noite ruim → medo de não dormir → tentativa de forçar o sono → mais ansiedade → mais insônia
Depois de uma noite maldormida, é natural que surja um receio em relação à noite seguinte. Esse receio leva a pessoa a tentar, de forma consciente e esforçada, “fazer” o sono acontecer — o que, paradoxalmente, é um dos maiores obstáculos para que ele aconteça. O sono é um processo involuntário; ele não responde bem a esforço ou controle deliberado. Quanto mais a pessoa tenta forçar, mais alerta o sistema nervoso fica, e mais distante o sono parece.
Esse ciclo explica por que muitas pessoas relatam dormir melhor justamente quando “desistem” de tentar — em uma viagem, por exemplo, sem a pressão da rotina, ou em situações em que simplesmente não têm mais energia para se preocupar com o próprio sono.
O que NÃO fazer quando não consegue dormir
Alguns comportamentos, embora pareçam ajudar no momento, tendem a alimentar o ciclo que acabei de descrever:
- Ficar olhando o relógio: verificar repetidamente as horas reforça a ansiedade sobre o tempo que resta para dormir, e intensifica o alerta.
- Usar o celular: além da luz, que atrasa a produção de melatonina, o conteúdo (redes sociais, notícias, mensagens de trabalho) mantém a mente ativa.
- Trabalhar na cama: transforma o ambiente que deveria ser associado a descanso em um ambiente associado a produtividade e cobrança — um ponto central que retomo mais adiante, ao falar de condicionamento.
- Forçar o sono: tentar “se obrigar” a dormir, como se fosse possível controlar esse processo pela vontade, geralmente piora o quadro.
- Tomar álcool para dormir: embora facilite o início do sono, o álcool fragmenta as fases posteriores, gerando um sono mais leve e menos reparador, além de despertares no meio da madrugada.
- Automedicação: usar medicamentos por conta própria, sem orientação médica, pode mascarar o problema de fundo e trazer riscos de dependência ou efeitos colaterais.
O que realmente ajuda
Aqui entramos em terreno mais prático — mas ainda assim realista, sem promessas de solução instantânea.
Higiene do sono
Um conjunto de hábitos que favorecem o sono: manter horários regulares para deitar e acordar (inclusive nos fins de semana), evitar refeições pesadas perto da hora de dormir, e criar um ambiente escuro, silencioso e com temperatura agradável.
Rotina
Um ritual consistente antes de dormir — algo simples, repetido todas as noites, como ler algumas páginas de um livro físico, tomar um banho morno ou fazer alongamentos leves — sinaliza ao corpo que a hora de desacelerar está chegando.
Controle de estímulos
É uma das técnicas centrais da TCC-I, e explico com mais detalhe na próxima seção: a ideia é reservar a cama exclusivamente para dormir (e para a vida sexual), evitando usá-la para trabalhar, assistir séries ou mexer no celular.
Atividade física
A prática regular de exercícios, especialmente durante o dia, tem efeito comprovado na qualidade do sono. Vale evitar exercícios muito intensos próximos ao horário de dormir, já que podem ter efeito estimulante.
Redução da cafeína
Reduzir o consumo de cafeína, especialmente após o início da tarde, já que sua meia-vida pode ultrapassar seis horas — ou seja, um café tomado às 16h ainda pode estar afetando o corpo às 22h.
Relaxamento e respiração
Técnicas de relaxamento muscular progressivo e respiração diafragmática ajudam a reduzir a ativação fisiológica que mantém o corpo em alerta, facilitando a transição para o sono.
Mindfulness
Práticas de atenção plena ajudam a reduzir a ruminação e a preocupação antecipatória, treinando a mente a observar os pensamentos sem se prender a eles — uma habilidade especialmente útil para quem tem a mente acelerada logo ao deitar.
Como a Terapia Cognitivo-Comportamental entende a insônia
A Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia, conhecida como TCC-I, é atualmente reconhecida como tratamento de primeira linha para insônia crônica — muitas vezes recomendada antes mesmo do uso de medicação. Ela trabalha em várias frentes, que vou detalhar aqui em linguagem acessível.
Pensamentos automáticos
São aquelas frases rápidas que surgem na cabeça sem controle consciente, geralmente diante da hora de dormir: “eu não vou conseguir dormir hoje de novo”, “amanhã vou estar péssimo se não dormir”. Esses pensamentos disparam ansiedade quase imediatamente, e essa ansiedade, por sua vez, dificulta o próprio sono que a pessoa está tentando alcançar.
Crenças sobre o sono
Muitas pessoas com insônia carregam crenças rígidas sobre o próprio sono — por exemplo, “preciso dormir exatamente 8 horas ou meu dia será um desastre”, ou “se eu não dormir agora, não vou conseguir funcionar amanhã”. Essas crenças, embora pareçam razoáveis à primeira vista, aumentam a pressão em torno do sono e, paradoxalmente, dificultam ainda mais que ele aconteça.
Catastrofização
É o hábito de imaginar as piores consequências possíveis de uma noite maldormida — “vou estragar a reunião de amanhã”, “vou ficar doente de tanto cansaço”. Embora a privação de sono realmente tenha efeitos negativos, a catastrofização amplia essas consequências de forma desproporcional, aumentando ainda mais a ansiedade na hora de dormir.
Hipervigilância
Já mencionada anteriormente: é o estado de atenção excessiva a sinais de ameaça — nesse caso, sinais relacionados ao próprio sono, como o relógio, o barulho da rua, ou a sensação de “ainda estar acordado”.
Ruminação
O hábito de repassar mentalmente, de forma repetitiva, os mesmos pensamentos — sem chegar a nenhuma conclusão ou solução prática — mantendo a mente ativa justamente no momento em que deveria estar desacelerando.
Evitação
Algumas pessoas desenvolvem comportamentos de evitação relacionados ao próprio sono — evitar ir para a cama cedo por medo de “ficar horas acordado”, ou evitar atividades sociais à noite por antecipação do cansaço do dia seguinte. Esse padrão tem relação direta com o que discutimos em autossabotagem, já que, na tentativa de se proteger do problema, a pessoa muitas vezes acaba alimentando o próprio ciclo.
Condicionamento da cama
Esse é um dos conceitos mais importantes da TCC-I. Quando a cama é usada repetidamente para atividades diferentes de dormir — trabalhar, assistir vídeos, ficar no celular, ou mesmo ficar horas acordado tentando dormir sem sucesso — o cérebro passa a associar aquele ambiente com alerta, em vez de associá-lo com sono. É um condicionamento, no sentido mais literal do termo: a cama deixa de ser sinal de “hora de dormir” e passa a ser sinal de “hora de estar acordado, ansioso, ou trabalhando”.
Controle de estímulos
É a técnica que trabalha diretamente esse condicionamento: a orientação é sair da cama se não conseguir dormir depois de cerca de 20 minutos, ir para outro ambiente, fazer algo calmo e pouco estimulante (sem telas) e só voltar para a cama quando sentir sono novamente. Pode parecer contraintuitivo — sair da cama quando o objetivo é dormir — mas é justamente essa técnica que, com consistência, reconstrói a associação entre cama e sono.
Reestruturação cognitiva
É o processo de identificar e questionar os pensamentos e crenças rígidas sobre o sono (como os exemplos de catastrofização e crenças que mencionei acima), substituindo-os por interpretações mais realistas e menos ansiogênicas. Não se trata de “pensar positivo” de forma forçada, mas de examinar se aquele pensamento automático realmente corresponde à realidade, ou se está exagerando o problema.
TCC-I na prática
Na prática clínica, a TCC-I costuma combinar essas técnicas — controle de estímulos, reestruturação cognitiva, restrição do tempo na cama ao tempo real de sono, técnicas de relaxamento e psicoeducação sobre o funcionamento do sono — ao longo de várias sessões, com ajustes graduais conforme a resposta da pessoa. É um processo estruturado, mas que respeita o ritmo de cada paciente.
Quando procurar ajuda
Vale considerar acompanhamento psicológico quando:
- A dificuldade para dormir persiste por várias semanas, mesmo com ajustes na rotina
- Você percebe que o medo de não dormir já se tornou, ele mesmo, uma fonte de ansiedade
- O cansaço já interfere no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos
- Você recorre com frequência a álcool, medicamentos sem prescrição ou outras estratégias para conseguir dormir
- Existem sintomas associados de ansiedade ou depressão que parecem estar alimentando o quadro de insônia
- Você já tentou ajustar hábitos por conta própria e o problema continua
A TCC-I é um tratamento estruturado e com boa base de evidência — não é sobre “força de vontade” ou “tentar mais um pouco sozinho”. Muitas pessoas convivem com insônia por anos por acreditarem que é algo que precisam resolver sozinhas, quando na verdade existe um caminho terapêutico bem estabelecido para isso.
Conclusão
Se você chegou até aqui depois de mais uma noite difícil, quero deixar claro: a dificuldade de dormir que você sente tem explicação, tem lógica, e — o mais importante — tem tratamento. Não é frescura, não é falta de disciplina, e não vai se resolver apenas com “mais uma tentativa de força de vontade” antes de deitar.
Entender o que mantém esse ciclo ativo — os pensamentos automáticos, o condicionamento da cama, a ansiedade em torno do próprio sono — é o que permite, aos poucos, reconstruir uma relação mais tranquila com a hora de dormir.
Se as noites maldormidas já fazem parte da sua rotina há semanas ou meses, e você sente que chegou a hora de tratar isso com mais profundidade, faço atendimento de psicoterapia online, com foco em Terapia Cognitivo-Comportamental — entre em contato para agendar uma conversa inicial.
Perguntas frequentes sobre insônia
1. O que causa insônia? A insônia costuma ter múltiplas causas combinadas: ansiedade, estresse, hábitos de sono inadequados, uso excessivo de telas, cafeína, além de condições como depressão, dores crônicas e alguns medicamentos.
2. Ansiedade pode causar insônia? Sim, e é uma das causas mais comuns. A ansiedade mantém o corpo em estado de alerta (hipervigilância), o que é incompatível com o relaxamento necessário para iniciar o sono.
3. É normal acordar várias vezes durante a noite? Pequenos despertares ao longo da noite são normais e geralmente nem são lembrados pela manhã. O problema surge quando esses despertares vêm acompanhados de dificuldade para voltar a dormir, ou de pensamentos ansiosos.
4. Dormir pouco faz mal mesmo que eu me sinta bem no dia seguinte? Sim. Mesmo sem sintomas perceptíveis imediatos, a privação de sono tem efeitos cumulativos sobre memória, imunidade e regulação emocional que nem sempre são sentidos de forma consciente no curto prazo.
5. O celular realmente atrapalha o sono? Sim, por dois motivos: a luz azul da tela pode atrasar a produção de melatonina, e o conteúdo consumido (redes sociais, notícias, mensagens de trabalho) mantém a mente em atividade em vez de favorecer o relaxamento.
6. Quanto tempo leva para tratar a insônia com terapia? Varia conforme o caso, mas protocolos de TCC-I costumam ter duração de algumas semanas a poucos meses, com melhora perceptível relativamente cedo no processo para boa parte dos pacientes.
7. A TCC realmente ajuda na insônia? Sim. A TCC-I é reconhecida como tratamento de primeira linha para insônia crônica, com eficácia bem documentada, atuando diretamente sobre os pensamentos e comportamentos que mantêm o problema.
8. Quando devo procurar um psicólogo por causa da insônia? Quando a dificuldade para dormir persiste por várias semanas, gera prejuízo perceptível no dia a dia, ou quando você percebe que o próprio medo de não dormir já se tornou parte do problema.
Se este texto te ajudou a entender melhor suas noites difíceis, talvez também se identifique com outros temas do blog: estresse, ansiedade, burnout, como parar de pensar demais e procrastinação. São padrões que, na prática clínica, costumam aparecer interligados — e que também podem ser trabalhados em psicoterapia online, com base na Terapia Cognitivo-Comportamental.
Recupere uma relação mais tranquila com o sono
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Ricardo Araujo